domingo, 17 de novembro de 2013

quando você voltar pra casa, pequena, não há tristeza que valha a pena



Fui vento.
Voei longe
(pra lá, pra cá, pra lá, pra cá)
Soprei varais e vi:
roupa colorida de desgosto,
alma pendurada pra Deus ver
a falta da vontade de crescer.
Tava lá pra tomar sol,
porque ainda antes,
caiu café de solidão
e necessidade das tuas mãos.

Fui chuva.
Caí chão.
É, chão.
Porque chovi de baixo pra cima, sabe,
do chão pralém e até mais.
Molhei foi o céu.
De mim,
porque chorei.
E senti falta de você.
Chorei porque senti falta de você.

Fui inverno.
E eu sei, amor...
é ainda Primavera.
Mas o tempo que não passa
e só nos passa sol,
queima o amor.
E de fim de tarde se veste de fim de mundo.
E eu grito surdo,
também meio mudo.
Falta de clareza de verão não-dito.
Mas eu dito aqui o grito pra você:
te preciso!

Fui retorno.
Depois de vento,
chuva,
inverno,
coloquei o sapato e saí pra ser gente
e, amor, eu vi:
não é barato
sentir saudade
e morrer na vontade
do teu sorriso.

E eu que, aqui,
longe do teu abrigo quase não vivo,
espero que perdoe por ter sido cícero
que me fez te escrever,
descrever aqui,
só pra dizer que quando te vir
vou te abraçar com calor
de quem tem eternidade pra dar.
Vou correr jardim.

sábado, 2 de novembro de 2013

Cafuné



Tenho precisado te ouvir baixinho,
te fazer carinho,
cafuné.
Se você aquietar aqui,
por qualquer canto de mim,
juro que todo dia,
bem cedinho,
tem café.

Tenho pensado em correr mais.
Mais vento,
mas pra isso,
que tormento!,
há pouco tempo.

E mesmo que me haja pouco tempo,
perto ou longe do tormento,
você não sai do pensamento
e eu não me aguento.

Penso em escrever,
te descrever,
pra te ver,
te fazer crer
que é pra ser.

Vai ter domingo pra assistir
filme no sofá sem muito pra falar
e eu vou pensar em te beijar,
ver o mundo parar,
de meia colorida no pé
enquanto te faço cafuné.





sábado, 26 de outubro de 2013

poesia crua


É você.
Não te dediquei verso algum escrito em pedaço de papel algum.
Não corri poesia. Simplesmente porque não corro poesia.
De você, é poesia crua.
Na leveza, distância e silêncio.
Lembro de ti quando ouço Ana. E tenho ouvido com mais frequência.
Liguei pra ouvir tua voz. Quis dizer tanta coisa. Pedir perdão, talvez. Te abraçar, mas por telefone não dá.
Quis dizer tanta coisa, mas é... poesia crua.
Que não se diz, não se bota num pedaço de papel. Não se escreve. Se elabora, cuida, cresce e vive dentro da gente.
Tenho te pensado tanto. Tenho tanta coisa pra te contar.
Preciso te ver.  Mesmo que de longe. Ver teu rosto.
E, não. Eu não estou bem. A tempestade tem estado cada dia maior, mais fora de controle. Tudo me escapou das mãos, exceto pela Primavera. Mas meu corpo virou canto qualquer do mundo.
Te preciso mais que ontem e menos do que precisarei amanhã.
E te amo.

Do retorno




A casa já não tem mais o mesmo cheiro nem as mesmas cores.
A música que tocava aqui já não toca mais.
Os sorrisos ferem, choram.
Enquanto ausência, perdi meu melhor amigo. Temporariamente ou não, nossa existência conjunta mudou. Se não botar de volta no lugar, haverá mudanças. Se botar de volta no lugar, haverão ainda mais mudanças. Eu não sei.
Perdi também o talento de sorrir pra tudo. Ando um tanto amarga, sem saber o que dizer, como dizer.
Tenho sido menos. Estado menos. Vivido menos.
Mal sei de poesia.
A única coisa que permaneceu, cada segundo mais firme, foi a Primavera.
Se não fosse pelo cheiro, o carinho, o beijo, o amor... Eu seria fim. Não fim de vida. Não morro cedo. Sou manhã morna, longe de ver o sol desaparecer, a noite cair. Mas se não fossem as mãos de quem tem meu coração, eu seria fim de mim mesma. Fim de caminho. Eu seria solidão que machuca o peito e queima os olhos. Eu seria escombro de meu próprio mundo.
O amor de quem mais precisa de amor mantém minha estrutura de pé, o coração batendo, a voz gritando, a mente sã, a vontade de chegar infinita.
É por ela.
Pelo amor.
Eu volto pra dizer que a amo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Pra não dizer que não falei das flores



  O título é roubado.
  Mas veste bem uma manhã de sexta-feira que será sempre lembrada.
  Porque ela sorriu pra mim.
  O sorriso mais bonito.
  Pra mim.
  Por mim.
  Eu acho.
  De qualquer modo, prefiro acreditar que sim.
  Sim.
  E a mão dela repousou sobre a minha.
  Explodiu-me o peito.
  E a voz dela me disse repetidas vezes que me ama.
  Transbordou-me felicidade.
  E eu quis que o tempo parasse.
  (e tic-tac... tic-tac... tic-tac)
  Em vão.
 
  Até ontem, havia saudade.
  Hoje há a lembrança apertada no peito da companhia dela, horas atrás.
  Começo de saudade outra vez.
  Começo de vontade outra vez.
  Como se eu a estivesse amando pela primeira vez.
  Mas é sempre como na primeira vez.
  É sempre bonito.
  Mesmo nas falhas.
  Porque em meu peito não há mais canto algum que a existência dela não ocupe.
  Talvez seja um erro, mas eu não quero mais ninguém.
  Então que o tempo passe sempre.
  Sempre com a certeza de tê-la minha.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Silêncio de Inverno



   Serei ausência até que a Primavera volte
   nem que seja só pra me dizer que nunca mais vai voltar.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Intrínseco VI:



   Lavei a alma com poesia
   e vim em paz enfrentar o dia:
   não quero guerra;
   quero apenas o sonho
   de amenizar a dor de não saber navegar.

   Porque eu quero o mar.
   Eu quero repousar a imensidão azul da terra-firme
   que nunca encontro; que jamais chega.

   Agora que encontrei a luz do meu farol
   não me perco mais:
   ancoro em qualquer porto
   com o peito carregado de amor,
   porque posso enxergá-la
   mesmo de olhos fechados.
 
   E a saudade tem o cheiro dela.
   E a cor do jardim mais bonito que eu já vi,
   repousado no silêncio por medo,
   sem saber que sua beleza é tanta
   que me preenche o sorriso mais sincero.

   Não quero guerra;
   quero sonho realizado
   de navegar mesmo sem saber
   no mar de flores em que,
   mesmo perdida,
   me encontrei.

   E realizei.
   Naveguei o tal mar de flores sem cessar,
   até a Primavera chegar.
   E, daí, então, eu sorri,
   porque notei que as flores se juntaram a mim
   mesmo depois do fim.

   Eu quero morrer no jardim
   que ela fez florescer em mim:
   somente assim morro feliz.
 

Virei algo parecido com rádio velho



   Há tanta poesia arrancada
        e vivida com pressa de ser
    aqui,
      que eu nem bem sei
quem sou,
            se sou
        ou se quero ser.

            Eu já nem sei se isso
     ainda é sobre mim.

                     Porque o universo em mim
                            desfaleceu
                       em brilho de estrelas mortas
                 e amanheceu jardim
                                (o jardim mais bonito que já presenciei,
                                                     por assim dizer)
                      e agora eu só vejo flores,
                                        só sei das flores,
                          só tenho flores
                               e só quero flores.

       (Flores, flores, flores e mais flores.)

Ah!, mas veja só,
            fui tentar dizer sobre mim
   e acabei por terminar dizendo
                        sobre as flores.

                                   (Flores, flores, flores, flores, flores...)


e hoje eu pareço rádio velho: só sei repetir jardim. é sobre ela outra vez.
                             

Isso é uma mentira


 Intrínseco  IV:
(Ex)          (I)

  E foi.
  Foi até o fim da aVenIDA.
  E retornou tempos depois.
  Com olhos cansados e um sorriso morno.
  E sem dizer nada abraçou outro cigarro e dançou qualquer coisa sozinho ao som de um silêncio bonito, desgastado e intocável.
  O riso era ímpar ao corpo e ao seu estado de espírito.
  Lembrou dos amores tardios, que só amou quando já haviam partido.
  E sentiu vontade de chorar, mas o vazio é tanto que até as lágrimas tornaram-se egoístas e hoje vivem só para si,
  Não chora mais.
  Não ama mais.
  E talvez nunca tenha de fato existido (não existiu).
  Chegou até aqui com tanta coisa pra mostrar, mas esqueceu de se lembrar, de amadurecer.
  Não vive mais.

(porque eu pensei que fosse sobre você, mas não encontrei qualquer resquício teu aqui: isso é sobre te deixar ir. -J.)

Uni(verso) II



Diálogo de portos:

  -Ancoraste em mim até o fim ou somos nós nada além de passagem?

  -Sobre o fim eu não sei nada.

  -Mas e quando tu partir de volta pro mar?

  -Então eu vou ter a luz do teu farol pra me guiar.

  -E se por ventura, qualquer dia desses sem você, ela se recusar a acender?

  -Somos nós?

  -Feito nó de marinheiro.

  -Então mesmo que ela não esteja lá, eu a enxergarei e ela me guiará.

  -Ancoraste em mim até o fim?

  -Até depois do fim.

domingo, 7 de julho de 2013

Uni(verso) I


 Sobre o céu as flores:

   O céu que me é teve suas estrelas substituídas por flores: antes, ao observar os pontos brilhantes lá no alto, eu me lembrava deles próprios, porque era exatamente essa a resposta;  hoje, quando direciono meu campo de visão para o alto, os pontos brilhantes ainda estão lá, mas eles me fazem lembrar as flores. Porque agora a resposta é primavera.
   Mesmo que julho seja inverno: eu vejo flores no céu e eu vejo flores no chão.
   Eu vejo flores onde quer que eu olhe.
   Eu vejo flores na minha camiseta do Smiths, porque ficou com o cheiro dela.
   Eu vejo flores em todo canto, inclusive no céu, porque eu a amo.
   E as estrelas em mim se partiram ao meio e brilham cada vez menos.
   Isso é sobre amar outra vez; é sobre as flores.

   M. <3

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carlos gosta de Sebastião

"Carlos gosta do cheiro da chuva; do barulho também. Gosta dos dias cinzas e do silêncio de fim de domingo.
  Sebastião conta os passos que dá ao sair de casa até chegar ao ponto de ônibus. Sebastião gosta de rosas, especialmente as vermelhas.
  Carlos conta estrelas. Fala sozinho. Gosta de bolo de chocolate e de coca-cola.
  Sebastião gosta dos dias mais quentes. Anda de bicicleta nos fins de semana. Odeia refrigerante.
  Carlos gosta de Sebastião, mas não sabe que ele se chama Sebastião. Sebastião nunca se apaixonou e também nunca parou pra pensar sobre o amor.
  Carlos gosta dos livros; Sebastião, dos discos.
  Sebastião gosta dos filmes de romance; Carlos assiste canais de culinária.
  Sebastião pega o mesmo ônibus todos os dias ao voltar do trabalho e senta sempre no mesmo banco; Carlos o encontra nesse mesmo ônibus uma vez por semana. Foi assim que o conheceu.
  Carlos gosta de observar a forma como Sebastião interage com o celular ao responder mensagens: um sorriso meio disfarçado, expressões de dúvida e/ou surpresa.
  Sebastião, dia desses, esbarrou em Carlos e pediu desculpas, sorriu e foi em direção ao mesmo banco, de todos os dias.
  Carlos sentiu seu corpo todo vibrar. O lugar ao lado de Sebastião estava vago. Ele decidiu ir até lá. Sentou-se, então.
  Sebastião sorriu outra vez. Carlos disse “olá". E uma conversa se iniciou a partir daí.
  Carlos disse que um dia quer se casar. Sebastião disse que tem medo de morrer.
  Carlos descobriu que Sebastião se chama Sebastião e que sua banda favorita é Los Hermanos. Sebastião pensou sobre o amor pela primeira vez, até mesmo em se casar.
  E, por fim, antes de descer do ônibus, Carlos tirou da bolsa um pequeno caderno e escreveu numa folha: ‘de onde vem o jeito tão sem defeito que esse rapaz consegue fingir? Olha esse sorriso, tão indeciso, tá se exibindo pra solidão.’
  Sebastião leu e olhou pros carros que passavam do lado de fora. Carlos se despediu e desceu do ônibus.
  Sebastião pela primeira vez se apaixonou; Carlos pela primeira vez foi amado de volta."

terça-feira, 25 de junho de 2013

Você (te trago flores roubadas, amor):




   te descrevo em poesia
   para que talvez assim
   a dor seja tardia.

   e nesse sorriso fugidio
   eu parto de mim mesma
   rumo ao oceano,
   que leva e traz qualquer amor.

   eu, que nem bem sei de mim,
   pra onde vou,
   de onde vim,
   pensei segundos atrás
   em te fazer feliz.

   trago flores roubadas
   de um jardim quase morto.
   mas, ah, amor...
   elas são pra você.

   quem sabe não basta.
   pra mim,
   pra você,
   pra nós.

   amor, quem sabe
   quanto tempo vai durar
   até acabar?
   quem sabe
   quanto tempo vai levar
   pra gente se encontrar
   e a saudade amenizar?

   te descrevo em poesia,
   amor,
   porque não posso descrever
   em beijo,
   em abraço,
   em carinho,
   em silêncio.

   te poetizar
   é só o que resta
   para quem a vida toda
   esperou pra te ver chegar.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Amanhecer



   Amanheci silêncio
   cego,
   doído,
   estampado na cara,
   fixado no cheiro da pele.

   Amanheci de costas viradas
   para o mundo,
   para mim,
   para que me viu,
   para quem não me vê.

   Amanheci sem
   dinheiro no bolso,
   sem
   paz no olhar,
   sem
   amor no coração.

   Amanheci
   cinza,
   quase morta.
   E cadê qualquer sorriso
   pra acender
   a luz em mim?

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um jardim de amor pra você



   A intenção era fazer
   com que aqui florescesse um jardim.
   Mas sobre as flores
   eu não sei nada.

   Eu sei só sobre o amor.
   E um tanto (tão pouco) sobre as cores
   que, dia vem, dia vai
   pintam qualquer poesia em mim.
   Pra me deixar assim,
   leve,
   tão leve...

   ...leve para sobrepor
   um pouquinho de amor
   no abraço de quem eu ainda
   não abracei,
   porque ainda não conheci,
   não vivi.

   Mas quero viver.
   E, por Deus!,
   tenho pensado tanto (tanto, tanto)
   que acho que quero sê-la.
   E repousá-la em carinho
   e talvez em (in)finito.

   Porque vezenquando me invade,
   me acelera,
   me transborda
   e me adormece, bem aqui,
   no peito,
   tamanha vontade de vê-la sorrir.

   A intenção era escrever aqui
   qualquer coisa assim,
   bonita,
   p'ra fazer florescer nos olhos dela
   o jardim mais bonito
   e colorido.
   P'ra fazer nascer no coração dela
   o mesmo amor que eu tenho pensado
   tanto (tanto, tanto)
   que nasceu em mim.
   
 

terça-feira, 21 de maio de 2013

Intrínseco I:



  Há boatos, lá na rua de baixo,
  de que minh'alma pulou pra fora
 (do corpo, do riso, das flores, da própria alma)
  e agora vaga por aí.
  Mas eu não sei,
  eu não vi.
  Eu só vivi.
  Eu chorei, eu parti.
  E, por fim, eu morri.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Ser saudade

   Ultimamente o céu só faz desabar.
   Em mim.
   E nela.
   Em nós.
   Nele próprio.
   Eu ainda não deixei de imaginar estrelas no teto do quarto.
   E também não deixei de usar o colar com a aliança que ela me deu ("do nosso casamento que nunca vai acontecer", eu disse.)
   E também não deixei o sorriso dela escapar de vista;
a foto no celular é prova disso - ela sorri pra mim todas as noites, mesmo sem saber.
   Tem dias que eu queria correr e abraçá-la - e não soltar nunca mais.
   Porque sinto saudade de viajar pra lua - de ver as estrelas de perto, de senti-las em mim, de sentir que eu as sou.
   Porque, no fim das contas, acho que quase ninguém sabe, mas todos nós temos pó de estrela dentro da gente. A ciência comprova.
   E eu não sinto mais nada em mim - nada que venha dos pontos brilhantes no céu.
   Eu não me encaixo mais em lugar algum no céu.
   Eu não sou mais ponto brilhante algum no céu.
   Nem pra mim.
   Nem pra ela.
   Nem pro céu.
   ... pra ninguém.
 
   Ultimamente o céu só faz desabar.
   E eu que há tanto tempo não chorava tenho agora os olhos marejados.
   E eu que há tanto tempo não pensava sobre ela não consigo tirá-la do pensamento.
   E eu que há tanto tempo desconhecia a saudade tenho a saudade me seguindo pelos becos da alma, pela parte de mim que não há, não é, não tem.
 
   Ultimamente o céu só faz desabar.
   E ela agora me chama de pequena.
   E arranca-me um sorriso nas poucas vezes que brilha na minha direção.
   Pergunto-me se a saudade fez moradia no peito dela também ou se estou navegando sozinha nessa imensidão de lugar nenhum e se estar cada vez mais longe também significa amor.
   Eu não sei.
   Não sei de mim - quando me perguntam, eu faço pouco caso e respondo qualquer coisa.
   Não sei dela - quando me perguntam, eu digo que esqueci.
   Não sei de nós - quando me perguntam, eu digo que fomos só passagem.
   Porque cada vez que olho pro alto tem menos estrelas no céu - e, por Deus, não sei por quê durante esse tempo todo eu fiz questão de esquecer que a maioria delas está morta.

 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O Funeral de Chaplin


    O céu chorava naquela manhã de terça-feira e as árvores sorriam a cada gota de chuva que lhes beijava.
    Terminei de fumar meu cigarro e segui caminho em direção a qualquer lugar acompanhado de meu guarda-chuva. Não sei por quê, mas o dia estava quieto demais, silencioso. Tudo parecia monótono em demasia. De qualquer modo, segui calado, cantarolando um refrão ou outro em pensamento. Parei no cruzamento, esperando o movimento dos carros cessar para atravessar a rua; enquanto isso, baixei os olhos, tentei contar as gotas d'água que descansavam exaustas em meus sapatos. Atravessei a rua e, ao pisar na calçada, dei de cara com a banca de jornal.
    Agora, veja bem, eu nunca gostei de ler jornal. Nunca. É tragédia demais; já não basta tudo que meus olhos comem com desgosto no labirinto que é essa cidade. Mas, naquela terça-feira o jornal me chamou a atenção. Eis, aqui, o que eu me lembro da notícia:

               
                    "Madrugada de mistério: 

                   Menino é encontrado morto em rua do centro da
                  cidade"                                                                                                


    Era a notícia que gritava no jornal. Mais embaixo, havia detalhes do caso e a foto do corpo coberto com um cobertor.
    O menino morava ali mesmo, na rua. Estava escrito no jornal. Alguns dos outros moradores de rua o conheciam; disseram que ele morreu dormindo e, também, que não havia ninguém que quisesse fazer mal a ele.
    Eu comprei o jornal. Saí apressado da banca, apertei o passo. Caminhei quase correndo em direção ao necrotério. No jornal dizia que, de fato, aparentemente ele não fora assassinado nem nada. Só morreu mesmo; assim, do nada. Levaram o corpo para o necrotério e disseram que iam enterrá-lo, de qualquer forma, porque não existiam motivos aparentes para investigação.

- O menino. - eu  disse, ao chegar no balcão do necrotério.
- Perdão? - disse o funcionário.
- O menino que morreu essa madrugada. - eu respondi.
- O que tem ele? - o funcionário parecia estar de mau humor e, pelo que me parecia, eu não estava ajudando muito.
- Onde é que ele está? Eu poderia vê-lo? - perguntei, ansioso por uma resposta positiva.
- O senhor, por acaso, é da família?
- Não, não sou. Mas gostaria de vê-lo.
- Receio que não será possível, senhor.
- E por que não? Olha, eu posso ao menos falar com o seu supervisor ou com o médico responsável pelo corpo do menino? - insisti.
- Só um momento, senhor. - o funcionário se levantou e sumiu num corredor mais ao fundo. Eu estava nervoso, batendo os pés, ansiando para que o rapaz retornasse logo acompanhado por alguém que pudesse me dar uma resposta melhor.
    Alguns minutos depois, ele voltou acompanhado de alguém.
- Pois não? - me disse o homem.
- O menino que morreu essa madrugada, que morava na rua. Eu gostaria de vê-lo. - respondi.
- Certo. E o senhor é da família? - ele perguntou, me olhando fixamente.
- Não, não sou. Mas gostaria de vê-lo.
- E por que? - agora ele me olhava com um ar curioso.
- Veja bem, eu nem sei o que estou fazendo aqui. Vi a notícia no jornal - mostrei a ele o tal jornal - e, o menino não tem família, entende? Morava na rua. Achei que talvez ele precisasse de alguém agora.
- Mas o rapazinho está morto, senhor.
- Eu sei. Mas, ainda assim, será que eu poderia estar com ele agora? Se o senhor morresse, não gostaria de ter alguém que sentisse sua morte? Sejamos sinceros.
- É diferente. - ele respondeu - Eu tenho família, sei que terei alguém que sentirá minha morte.
- Pois bem. Sorte a sua. Mas o menino não tinha família. Não tinha quem sentisse a morte dele. E agora tem. Será que eu poderia?
- Mas, senhor... - ele já estava desistindo.
- Por favor, me deixe fazer isso por ele. Talvez eu até o tire daqui e o enterre. Ele merece um enterro digno, como qualquer um de nós. E é uma criança. Uma criança que, antes de morrer, viveu em condições que ninguém deveria viver. Por favor. - mas eu não. Eu estava longe de desistir.
- Está certo, está certo. Vou te deixar entrar. - é, ele desistiu. E eu venci.

    O corredor era longo e tinha uma quantidade considerável de portas, até. Entramos na última. Só havia um corpo lá, o do menino.
    Ele era pequeno e magricela. Aparentava ter uns 8, 9 anos. O corpo estava limpo, pois já havia sido lavado. O homem me disse que quando chegou estava imundo e parecia que ele nunca tinha tomado banho na vida.
    Eu observei de longe, dei apenas alguns passos na direção da mesa, mas depois parei, ainda um tanto distante.

- Eu vou levá-lo comigo. Eu poderia? Gostaria de enterrá-lo. - o homem me olhou, pensando numa resposta.
- Vai fazer diferença se eu insistir em dizer que não? - ele já havia desistido antes mesmo de entrarmos numa discussão amigável novamente.
- Não, não vai. - eu disse, sorrindo.
- Tudo bem, ele seria enterrado como indigente mesmo.

    O tal homem fez tudo que deveria ser feito. Eu não entendo muito bem dessas coisas e, pra ser sincero, nem quero entender. Por fim, tudo que restou para eu fazer foi ligar para o serviço funerário e mandar buscar o menino. Enquanto esperava, fui numa loja de roupas ali perto mesmo e comprei um conjunto que julguei bonito para a ocasião e que parecia caber no corpo dele e levei de volta ao necrotério. O homem que não gostava de discussões foi quem o vestiu. Pouco tempo depois o carro funerário chegou, colocou o menino no caixão e nós fomos em direção ao cemitério.
    Acertei tudo que tinha de acertar com os dois homens do serviço funerário e depois com a mulher da recepção do cemitério.
    Eu havia decidido não velar o corpo. Não gosto de velórios. Queria apenas que o menino não fosse enterrado num lugar qualquer e como indigente. Pedi que o enterrassem logo. Éramos apenas os dois coveiros e eu, além do menino.

- Era seu filho, senhor? - um deles me perguntou.
- Não. É o menino que morreu essa madrugada. - eu respondi.
- E ele tem um nome? - o outro perguntou.
 
    O nome. Eu não havia pensado nisso. Não queria que ele fosse enterrado como indigente, mas não havia pensando num nome. Parei por um momento e fiquei pensando em que nome dar para ele. Depois de alguns minutos, havia tomado minha decisão: Chaplin; devido ao dia silencioso e um tanto sem cor que estava sendo aquela terça-feira. Tão preta e branca. Eu sorri e respondi ao coveiro que ainda esperava uma resposta:

- Chaplin. O nome do menino é Chaplin. - o coveiro riu baixinho.
- Nome engraçado. - ele disse.

    Eles repousaram o caixão na cova. Eu joguei uma única rosa branca em cima do caixão, que foi tudo que eu havia pedido ao serviço funerário e fui embora.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre acreditar em monstros dentro do guarda-roupa


   Leona é só sorriso.
   Mas há também os dias ruins; os dias em que o vento não está forte o bastante a ponto de fazer seu cabelo voar, sem sair do lugar e, por fim, repousar um tanto bagunçado em seu ombro.
   Leona vive assim, sem muito se esforçar para viver. Não que isso seja algo claro o bastante para mais alguém além dela entender.
   Leona admira os loucos, as árvores e a chuva. Diz que essas três coisas juntas formam um ciclo e que só o silêncio consegue explicar. Vai entender.
   Leona passou o sábado e o domingo inteirinhos em meu pensamento. Acordei pensando nela. Fui dormir pensando nela. No que dizer. Em como dizer. E se eu deveria realmente me pronunciar sobre a existência de Leona.
   Porque ela, a Leona, na verdade não existe. Ou talvez exista. Mas é só em mim. Ou dentro do meu guarda-roupa. No espelho que há na porta, onde eu insisto em escrever qualquer coisa todos os dias; onde também há o nome do Augustus Waters seguido de um coração e o nome da Allana, em japonês, também seguido de um coração.
   Entre o sábado e o domingo eu descobri que a Leona é cada uma das minhas poesias, ou seja lá o que for todas as coisas que eu escrevo. Leona é o monstro do meu guarda-roupa. E também as estrelas que eu fico imaginando no teto do quarto antes de dormir por causa da Allana, por causa de mim e por não sei mais o quê. Leona é a bagunça do quarto, as roupas que eu ainda não coloquei no lugar, as cartas que eu ainda não organizei de volta nas caixas depois da reforma aqui em casa.
   Leona anda por aí, mais em mim do que eu mesma. E assim tudo parece mais bonito; assim o céu parece mais azul mesmo quando chove e quando cai a noite sempre há estrelas lá no alto. E assim, bem longe de mim, é que eu consigo me encontrar.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Pai,


  faz quantos anos? Seis? Sete? Por aí.
  O carro percorria do Tucuruvi até o Jabaquara todo fim de semana (todo fim de semana que você estava são o bastante para lembrar de mim e do meu irmão).
  E tinha Ira!, Capital Inicial, Legião Urbana, Alanis Morissette. Eu lembro. A primeira vez que ouvi Faroeste Caboclo foi no teu carro. E a primeira vez que a cantei inteira, que notei que tinha decorado a letra toda foi no teu carro também.
  Te lembra, pai? A música ali em cima se chama "Tarde Vazia", mas é só porque é minha música favorita do Ira!, a mais bonita. Porque, naquela época, contigo, as tardes pareciam cheias. Qualquer hora do dia parecia cheia. Era bonito, de certa forma.
  E eu ainda lembro do cheiro da tua casa. Era o mesmo da tua blusa quando você me abraçava. E já faz tanto tempo que eu não sinto aquele cheiro. Nem na tua casa. Nem na tua blusa. Porque eu nem sei onde é que você mora. E já faz tanto tempo que eu não te abraço.
  Te lembra, pai? Também já faz um tempo que eu deixei de te chamar de pai. Pra mim agora é Paulo e só. E eu peguei birra do meu sobrenome, do teu sobrenome no meu sobrenome.
  Eu não admito nunca, mas tem, sim, uma ferida aqui dentro do peito por tua causa. Porque às vezes eu ainda queria enxergar tudo com a mesma inocência de antes, de quando eu tinha só 8 anos. Porque às vezes eu queria mesmo que você fosse o pai que eu pensava que você era quando eu tinha só 8 anos. Porque às vezes eu tenho saudade daqueles tempos.
  Às vezes eu tenho saudade de dormir junto de você, de ouvir tua voz me dando boa noite. Tenho saudade de passar as férias longe de casa, de ficar dentro do carro ouvindo Ira!, enquanto você o lavava do lado de fora. Tenho saudade da tua comida, até. Às vezes eu tenho saudade de você, pai. E dói. E eu desvio o olhar, porque odeio admitir que ainda me importo, que ainda te queria por perto.
  Crescer só me doeu muito por tua causa. Porque antes, você era meu castelo. Mas daí, então, eu cresci, e toda a visão que eu tinha de você sumiu aos poucos e da última vez que nos falamos eu te disse que nunca mais quero te ver.
  A única coisa que restou por aqui de você foi o livro que você me deu de aniversário com a dedicatória mais bonita que alguém já escreveu e essas músicas, essas bandas, que estão paradas até hoje nos anos em que você era meu herói.