terça-feira, 23 de abril de 2013

Ser saudade

   Ultimamente o céu só faz desabar.
   Em mim.
   E nela.
   Em nós.
   Nele próprio.
   Eu ainda não deixei de imaginar estrelas no teto do quarto.
   E também não deixei de usar o colar com a aliança que ela me deu ("do nosso casamento que nunca vai acontecer", eu disse.)
   E também não deixei o sorriso dela escapar de vista;
a foto no celular é prova disso - ela sorri pra mim todas as noites, mesmo sem saber.
   Tem dias que eu queria correr e abraçá-la - e não soltar nunca mais.
   Porque sinto saudade de viajar pra lua - de ver as estrelas de perto, de senti-las em mim, de sentir que eu as sou.
   Porque, no fim das contas, acho que quase ninguém sabe, mas todos nós temos pó de estrela dentro da gente. A ciência comprova.
   E eu não sinto mais nada em mim - nada que venha dos pontos brilhantes no céu.
   Eu não me encaixo mais em lugar algum no céu.
   Eu não sou mais ponto brilhante algum no céu.
   Nem pra mim.
   Nem pra ela.
   Nem pro céu.
   ... pra ninguém.
 
   Ultimamente o céu só faz desabar.
   E eu que há tanto tempo não chorava tenho agora os olhos marejados.
   E eu que há tanto tempo não pensava sobre ela não consigo tirá-la do pensamento.
   E eu que há tanto tempo desconhecia a saudade tenho a saudade me seguindo pelos becos da alma, pela parte de mim que não há, não é, não tem.
 
   Ultimamente o céu só faz desabar.
   E ela agora me chama de pequena.
   E arranca-me um sorriso nas poucas vezes que brilha na minha direção.
   Pergunto-me se a saudade fez moradia no peito dela também ou se estou navegando sozinha nessa imensidão de lugar nenhum e se estar cada vez mais longe também significa amor.
   Eu não sei.
   Não sei de mim - quando me perguntam, eu faço pouco caso e respondo qualquer coisa.
   Não sei dela - quando me perguntam, eu digo que esqueci.
   Não sei de nós - quando me perguntam, eu digo que fomos só passagem.
   Porque cada vez que olho pro alto tem menos estrelas no céu - e, por Deus, não sei por quê durante esse tempo todo eu fiz questão de esquecer que a maioria delas está morta.

 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

O Funeral de Chaplin


    O céu chorava naquela manhã de terça-feira e as árvores sorriam a cada gota de chuva que lhes beijava.
    Terminei de fumar meu cigarro e segui caminho em direção a qualquer lugar acompanhado de meu guarda-chuva. Não sei por quê, mas o dia estava quieto demais, silencioso. Tudo parecia monótono em demasia. De qualquer modo, segui calado, cantarolando um refrão ou outro em pensamento. Parei no cruzamento, esperando o movimento dos carros cessar para atravessar a rua; enquanto isso, baixei os olhos, tentei contar as gotas d'água que descansavam exaustas em meus sapatos. Atravessei a rua e, ao pisar na calçada, dei de cara com a banca de jornal.
    Agora, veja bem, eu nunca gostei de ler jornal. Nunca. É tragédia demais; já não basta tudo que meus olhos comem com desgosto no labirinto que é essa cidade. Mas, naquela terça-feira o jornal me chamou a atenção. Eis, aqui, o que eu me lembro da notícia:

               
                    "Madrugada de mistério: 

                   Menino é encontrado morto em rua do centro da
                  cidade"                                                                                                


    Era a notícia que gritava no jornal. Mais embaixo, havia detalhes do caso e a foto do corpo coberto com um cobertor.
    O menino morava ali mesmo, na rua. Estava escrito no jornal. Alguns dos outros moradores de rua o conheciam; disseram que ele morreu dormindo e, também, que não havia ninguém que quisesse fazer mal a ele.
    Eu comprei o jornal. Saí apressado da banca, apertei o passo. Caminhei quase correndo em direção ao necrotério. No jornal dizia que, de fato, aparentemente ele não fora assassinado nem nada. Só morreu mesmo; assim, do nada. Levaram o corpo para o necrotério e disseram que iam enterrá-lo, de qualquer forma, porque não existiam motivos aparentes para investigação.

- O menino. - eu  disse, ao chegar no balcão do necrotério.
- Perdão? - disse o funcionário.
- O menino que morreu essa madrugada. - eu respondi.
- O que tem ele? - o funcionário parecia estar de mau humor e, pelo que me parecia, eu não estava ajudando muito.
- Onde é que ele está? Eu poderia vê-lo? - perguntei, ansioso por uma resposta positiva.
- O senhor, por acaso, é da família?
- Não, não sou. Mas gostaria de vê-lo.
- Receio que não será possível, senhor.
- E por que não? Olha, eu posso ao menos falar com o seu supervisor ou com o médico responsável pelo corpo do menino? - insisti.
- Só um momento, senhor. - o funcionário se levantou e sumiu num corredor mais ao fundo. Eu estava nervoso, batendo os pés, ansiando para que o rapaz retornasse logo acompanhado por alguém que pudesse me dar uma resposta melhor.
    Alguns minutos depois, ele voltou acompanhado de alguém.
- Pois não? - me disse o homem.
- O menino que morreu essa madrugada, que morava na rua. Eu gostaria de vê-lo. - respondi.
- Certo. E o senhor é da família? - ele perguntou, me olhando fixamente.
- Não, não sou. Mas gostaria de vê-lo.
- E por que? - agora ele me olhava com um ar curioso.
- Veja bem, eu nem sei o que estou fazendo aqui. Vi a notícia no jornal - mostrei a ele o tal jornal - e, o menino não tem família, entende? Morava na rua. Achei que talvez ele precisasse de alguém agora.
- Mas o rapazinho está morto, senhor.
- Eu sei. Mas, ainda assim, será que eu poderia estar com ele agora? Se o senhor morresse, não gostaria de ter alguém que sentisse sua morte? Sejamos sinceros.
- É diferente. - ele respondeu - Eu tenho família, sei que terei alguém que sentirá minha morte.
- Pois bem. Sorte a sua. Mas o menino não tinha família. Não tinha quem sentisse a morte dele. E agora tem. Será que eu poderia?
- Mas, senhor... - ele já estava desistindo.
- Por favor, me deixe fazer isso por ele. Talvez eu até o tire daqui e o enterre. Ele merece um enterro digno, como qualquer um de nós. E é uma criança. Uma criança que, antes de morrer, viveu em condições que ninguém deveria viver. Por favor. - mas eu não. Eu estava longe de desistir.
- Está certo, está certo. Vou te deixar entrar. - é, ele desistiu. E eu venci.

    O corredor era longo e tinha uma quantidade considerável de portas, até. Entramos na última. Só havia um corpo lá, o do menino.
    Ele era pequeno e magricela. Aparentava ter uns 8, 9 anos. O corpo estava limpo, pois já havia sido lavado. O homem me disse que quando chegou estava imundo e parecia que ele nunca tinha tomado banho na vida.
    Eu observei de longe, dei apenas alguns passos na direção da mesa, mas depois parei, ainda um tanto distante.

- Eu vou levá-lo comigo. Eu poderia? Gostaria de enterrá-lo. - o homem me olhou, pensando numa resposta.
- Vai fazer diferença se eu insistir em dizer que não? - ele já havia desistido antes mesmo de entrarmos numa discussão amigável novamente.
- Não, não vai. - eu disse, sorrindo.
- Tudo bem, ele seria enterrado como indigente mesmo.

    O tal homem fez tudo que deveria ser feito. Eu não entendo muito bem dessas coisas e, pra ser sincero, nem quero entender. Por fim, tudo que restou para eu fazer foi ligar para o serviço funerário e mandar buscar o menino. Enquanto esperava, fui numa loja de roupas ali perto mesmo e comprei um conjunto que julguei bonito para a ocasião e que parecia caber no corpo dele e levei de volta ao necrotério. O homem que não gostava de discussões foi quem o vestiu. Pouco tempo depois o carro funerário chegou, colocou o menino no caixão e nós fomos em direção ao cemitério.
    Acertei tudo que tinha de acertar com os dois homens do serviço funerário e depois com a mulher da recepção do cemitério.
    Eu havia decidido não velar o corpo. Não gosto de velórios. Queria apenas que o menino não fosse enterrado num lugar qualquer e como indigente. Pedi que o enterrassem logo. Éramos apenas os dois coveiros e eu, além do menino.

- Era seu filho, senhor? - um deles me perguntou.
- Não. É o menino que morreu essa madrugada. - eu respondi.
- E ele tem um nome? - o outro perguntou.
 
    O nome. Eu não havia pensado nisso. Não queria que ele fosse enterrado como indigente, mas não havia pensando num nome. Parei por um momento e fiquei pensando em que nome dar para ele. Depois de alguns minutos, havia tomado minha decisão: Chaplin; devido ao dia silencioso e um tanto sem cor que estava sendo aquela terça-feira. Tão preta e branca. Eu sorri e respondi ao coveiro que ainda esperava uma resposta:

- Chaplin. O nome do menino é Chaplin. - o coveiro riu baixinho.
- Nome engraçado. - ele disse.

    Eles repousaram o caixão na cova. Eu joguei uma única rosa branca em cima do caixão, que foi tudo que eu havia pedido ao serviço funerário e fui embora.


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre acreditar em monstros dentro do guarda-roupa


   Leona é só sorriso.
   Mas há também os dias ruins; os dias em que o vento não está forte o bastante a ponto de fazer seu cabelo voar, sem sair do lugar e, por fim, repousar um tanto bagunçado em seu ombro.
   Leona vive assim, sem muito se esforçar para viver. Não que isso seja algo claro o bastante para mais alguém além dela entender.
   Leona admira os loucos, as árvores e a chuva. Diz que essas três coisas juntas formam um ciclo e que só o silêncio consegue explicar. Vai entender.
   Leona passou o sábado e o domingo inteirinhos em meu pensamento. Acordei pensando nela. Fui dormir pensando nela. No que dizer. Em como dizer. E se eu deveria realmente me pronunciar sobre a existência de Leona.
   Porque ela, a Leona, na verdade não existe. Ou talvez exista. Mas é só em mim. Ou dentro do meu guarda-roupa. No espelho que há na porta, onde eu insisto em escrever qualquer coisa todos os dias; onde também há o nome do Augustus Waters seguido de um coração e o nome da Allana, em japonês, também seguido de um coração.
   Entre o sábado e o domingo eu descobri que a Leona é cada uma das minhas poesias, ou seja lá o que for todas as coisas que eu escrevo. Leona é o monstro do meu guarda-roupa. E também as estrelas que eu fico imaginando no teto do quarto antes de dormir por causa da Allana, por causa de mim e por não sei mais o quê. Leona é a bagunça do quarto, as roupas que eu ainda não coloquei no lugar, as cartas que eu ainda não organizei de volta nas caixas depois da reforma aqui em casa.
   Leona anda por aí, mais em mim do que eu mesma. E assim tudo parece mais bonito; assim o céu parece mais azul mesmo quando chove e quando cai a noite sempre há estrelas lá no alto. E assim, bem longe de mim, é que eu consigo me encontrar.