sexta-feira, 29 de março de 2013

Pai,


  faz quantos anos? Seis? Sete? Por aí.
  O carro percorria do Tucuruvi até o Jabaquara todo fim de semana (todo fim de semana que você estava são o bastante para lembrar de mim e do meu irmão).
  E tinha Ira!, Capital Inicial, Legião Urbana, Alanis Morissette. Eu lembro. A primeira vez que ouvi Faroeste Caboclo foi no teu carro. E a primeira vez que a cantei inteira, que notei que tinha decorado a letra toda foi no teu carro também.
  Te lembra, pai? A música ali em cima se chama "Tarde Vazia", mas é só porque é minha música favorita do Ira!, a mais bonita. Porque, naquela época, contigo, as tardes pareciam cheias. Qualquer hora do dia parecia cheia. Era bonito, de certa forma.
  E eu ainda lembro do cheiro da tua casa. Era o mesmo da tua blusa quando você me abraçava. E já faz tanto tempo que eu não sinto aquele cheiro. Nem na tua casa. Nem na tua blusa. Porque eu nem sei onde é que você mora. E já faz tanto tempo que eu não te abraço.
  Te lembra, pai? Também já faz um tempo que eu deixei de te chamar de pai. Pra mim agora é Paulo e só. E eu peguei birra do meu sobrenome, do teu sobrenome no meu sobrenome.
  Eu não admito nunca, mas tem, sim, uma ferida aqui dentro do peito por tua causa. Porque às vezes eu ainda queria enxergar tudo com a mesma inocência de antes, de quando eu tinha só 8 anos. Porque às vezes eu queria mesmo que você fosse o pai que eu pensava que você era quando eu tinha só 8 anos. Porque às vezes eu tenho saudade daqueles tempos.
  Às vezes eu tenho saudade de dormir junto de você, de ouvir tua voz me dando boa noite. Tenho saudade de passar as férias longe de casa, de ficar dentro do carro ouvindo Ira!, enquanto você o lavava do lado de fora. Tenho saudade da tua comida, até. Às vezes eu tenho saudade de você, pai. E dói. E eu desvio o olhar, porque odeio admitir que ainda me importo, que ainda te queria por perto.
  Crescer só me doeu muito por tua causa. Porque antes, você era meu castelo. Mas daí, então, eu cresci, e toda a visão que eu tinha de você sumiu aos poucos e da última vez que nos falamos eu te disse que nunca mais quero te ver.
  A única coisa que restou por aqui de você foi o livro que você me deu de aniversário com a dedicatória mais bonita que alguém já escreveu e essas músicas, essas bandas, que estão paradas até hoje nos anos em que você era meu herói.